Cotas Raciais na nossa UEM!

Felizmente a UEM volta a discutir a possibilidade de implantar as cotas raciais em seu vestibular, esse é um momento positivo em que a nossa universidade pode se igualar às IES prestigiadas como, por exemplo, UEL, UESC, UENP, UFPR, USP, UNICAMP, UERJ, UnB. Além do fato de que nas instituições federais as cotas raciais são uma realidade desde 2012, após a decisão unânime do STF pela constitucionalidade das cotas raciais.

Todas as universidades públicas do Paraná têm cotas raciais, assim a UEM é a única ainda não instituiu essa ação afirmativa que tem como função principal apresentar condições mais justas, prevalecendo a equidade, para que mais estudantes negras e negros prestem o vestibular e estudem nessa universidade.

As cotas raciais são uma forma de ação afirmativa criada na década de 1930 na Índia a fim de reverter o racismo histórico contra determinados grupos étnico/raciais.

No Brasil, o sistema de cotas raciais tem mostrado a sua eficiência em todas as universidades em que foi implantado: cotistas são os que menos abandonam o curso, tem as maiores notas, terminam seus cursos dentro do prazo estabelecido e a maioria é aprovada em programas de pós-graduação no Brasil e no exterior. Tão importante quanto esses dados, é o fato desses alunos serem vistos como exemplos a ser seguidos por seus irmãos, amigos e pela comunidade que os cerca. Em longo prazo as cotas terão proporcionado o aumento de uma classe média negra no Brasil que terá maiores rendimentos, irá consumir mais, terá alto estima elevada e poderá ter chances concretas de fazer parte da elite política, intelectual e econômica do nosso país.

A reivindicação por cotas raciais feita pelos movimentos sociais, como o Coletivo Yalodê-Badá, grupo de pesquisadores como o NEIAB e de alunos do ensino fundamental de Maringá e região, é legitima, necessária e deve ser ouvida por toda a comunidade acadêmica, pois trata, principalmente, de possibilitar que a UEM tenha diversidade social, pluralidade étnica e exerça a equidade em seu processo de seleção de candidatos à alunos, tudo isso contribuirá para a construção de uma sociedade mais justa, com menor desigualdade racial.

Porém, a reivindicação por cotas na UEM é antiga, por exemplo, em 2006 houve o Seminário “O Negro na Universidade: o direito à inclusão” em que estudiosos de diferentes debateram o tema e apresentaram uma proposta. Há mais de uma década diferentes grupos (Centro Cultural Jhamayka, União e Consciência Negra de Maringá, Instituto Enedina Alves Marques, entre outros) têm solicitado que a UEM elaborasse formas de tornar seu processo seletivo mais abrangente com a inserção de cotas sociais e raciais. Eles partiram da premissa de que as cotas ajudariam a quebrar um circulo vicioso em que pobres e negros estudam em escolas cujo ensino é deficitário, não são estimulados a tentarem o vestibular ou precisam trabalhar ainda jovem, por isso não ingressam nas universidades públicas. Sem um curso universitário, recebem salários baixos, seus filhos estudam em escolas com ensino deficitário, precisam começar a trabalhar ainda jovens...

Assim, vemos a continuidade da exclusão e desigualdade!

Seria urgente dar sólidas condições aos filhos dos trabalhadores assalariados e aos negros para que ingressassem nas universidades públicas e que tivessem melhores condições de se inserir no mercado de trabalho.

As cotas são parte da solução esse problema!

Mas, em 2008, após meses de debates calorosos no Colegiado de Ensino Pesquisa e Extensão, a UEM rejeitou as cotas raciais e optou por inserir as cotas sociais. A partir de 2009 passou a reservar 20% das vagas para aqueles candidatos que comprovassem ser de família de baixa renda e ter feito o ensino fundamental e médio em instituições públicas. A justificativa da maioria dos conselheiros era de que a porcentagem reservada aos mais pobres abrangeria também os candidatos negros. Infelizmente esse diagnóstico não se comprovou e há estudos que mostram que mesmo com as cotas sociais não houve aumento significativo de alunos negros na UEM.

Mas a luta por cotas raciais continua!!

Durantes esse anos as reivindicações por cotas continuaram, o NEIAB se colocou como um porta-voz do tema, junto com o Yalodê-Bada, se manteve insistente na necessidade de tornar a UEM plural, multirracial e uma porta de entrada para a ascensão social daqueles que historicamente foram excluídos dos espaços do conhecimento formal e dos benefícios de estudar em uma universidade pública, gratuita e de qualidade.

Nos últimos anos novas estratégias foram usadas para tratar o tema: palestras, debates, exibição de filmes e uma petição online (yalodebada.com.br) que colhe assinaturas em favor das cotas raciais na UEM. Na continuidade da luta pelas cotas raciais, o reitor da UEM Mauro Baesso e seu vice Júlio Damasceno foram receptivos e abertos ao diálogo, encaminharam as demandas apresentadas aos setores competentes, participaram de eventos e mesas de debate, fato que ajudou no avanço da reivindicação por cotas até a sua chegada ao CEP. O que demonstra o perfil democrático dessa gestão e a persistência dos movimentos sociais em alcançar um benefício que será extremante positivo.

As cotas raciais são NECESSÁRIAS, pois vivemos num país racista, onde as desigualdades raciais não diminuirão sem ações afirmativas voltadas para beneficiar negras e negros, elas propiciarão que eles também se tornem profissionais em todas as áreas do conhecimento e não apenas nos postos com menores salários.

Com as cotas raciais a UEM será pluriracial, diversa e inclusiva, uma universidade em que todos estarão representados, convivendo e aprendendo com aqueles que se convencionou chamar de “diferentes”.

Texto: Profa. Dra. Marivânia Conceição Araujo