Fragmentos da obra

recado

 

 

Preciso que você veja

Entre as coisas esquecidas

A louça suja na pia

O mofo pousando cruel na doçura das frutas

Observe, por favor, se não deixei

Naquele canto do quarto

Por onde os insetos entram

Na ferrugem do ferrolho da janela da cozinha

Essa que sempre te acorda

Quando eu insisto em abrir

Assim que o sol se ajeita melhor no céu

Procure na caixa de areia dos gatos

Entre os pelos dos bichanos onde correm as pulgas que não matei

No desgaste da bicicleta largada no jardim

Talvez no banco de trás do carro que estraga estraga e você conserta

Olhe também embaixo das espreguiçadeiras

Na água amarga do jarro de flores que você esquece de trocar

Na ansiedade que antecede a raiva, quando a moça do telemarketing

Não atende, não atende, não atende

Sua solicitação

Entre os livros da estante, tantos não lidos —

Em eterno estado de espera e culpa burguesa

Nas mil declarações de amor que lhe chegam in box

Vigie se por ali, no cheiro do café

No pão cortado, os farelos sobre a mesa

No silêncio entre as notas de sua música preferida

Dá uma olhada se não larguei por esses cantos

Os sete pedaços do meu coração